domingo, 23 de setembro de 2007

Tristeza

Olho para o pequeno vaso com as flores que você me deu. Elas estão todas morrendo. Todas. Eram vermelhas. Agora, estão numa cor que não sei definir direito. Roxo, parece. Não sei... O que sei é que junto com as flores, algo dentro de mim está morrendo também. E você nem percebe. Talvez porque você esteja ocupado demais tentando mantê-las perto de você, no "postinho" que você reservou para cada uma delas em seu coração. Amigas e parceiras, amigas e parceiras, amigas e parceiras, amigas e parceiras, amigas e parceiras. Eu, o que sou?

Me sinto tão triste, tão sozinha. Até chorar dói. E você nem vê. Você acha que me entende e diz que está tentando me ajudar, mas continua a viver sua vida do jeito que sempre viveu.

Não me importo em escrever estas coisas aqui, porque sei que você não irá ler nada disso. Você não se importa mais com o que escrevo.

Não sei até onte vou aguentar. Não sei até onde você vai aguentar.

Eu só queria poder ir embora da sua vida sem terminar de morrer por dentro. E mesmo indo embora, você continuaria sendo o único a ocupar meu coração.

Aula de "Relações Humanas"

- Você deixa eu abrir este cadeado? Podemos abrir juntas. - Disse ela, com os olhos azuis brilhando de excitação diante do suposto desafio.

- Não vejo razão para abrir este "cadeado". É a minha vida, a minha história. Não existe motivo para compartilhá-la como um conto qualquer. Na verdade, este "cadeado" nem existe. Vocês é que o inventaram para justificar a dificuldade de comunicação entre as pessoas. Se não existesse algo que criasse problemas no (in)consciente das pessoas, o que seria da psicologia, psiquiatria e similares?

- Então, Sheyla, você está querendo dizer que inventamos os problemas na cabeça das pessoas para manter nossos empregos?

- Oh, não. Eu não seria tão injusta assim. O que quero dizer é que nesse caso - no meu caso - não existe problema. Não esse problema. Eu tenho vários problemas emocionais, claro, como todo e qualquer ser humano. Mas essa introversão, não é um problema. Sou introvertida por escolha.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Indo-se

O que sei é que tua ausência já está declarada inconscientemente dentro de mim. Você morreu pela primeira vez trocando de cidade. E agora seu corpo já não consegue mais segurar seu espírito. Ou será ao contrário? Já não sei.

Disseram que talvez você se vá hoje. Parece que a reação biológica vai ser forte demais para seu organismo já debilitado suportar. Um de seus rins não funciona mais. Disseram que daqui a pouco o outro também vai parar de funcionar. O espiritismo diz que quanto mais sofrida é a morte de alguém numa vida, mais difícil foi esta pessoa na vida anterior. Você não acredita nisso. E eu não sei mais no que acreditar. Essa seria a única explicação para tanto sofrimento, mas você nunca me pareceu uma pessoa difícil. Então, não sei porque você está sofrendo tanto.

O tempo é tão irônico. Enquanto vivo os momentos mais felizes da minha vida com meu namorado, você vive o últimos momentos da sua. E sei que eles não estão sendo felizes. Daria tudo para que eles estivessem sendo. Seria contraditório demais se eles estivessem sendo. Alegria e felicidade até no fim. Nunca vi alguém morrer assim.

Você nunca irá saber que escrevi estas coisas, mesmo que você dure mais 10 anos. Somos fundamentados em bases totalmente diferentes. Você é de 25. Eu sou de 85. Você não tem mais ninguém da sua época. Estão todos mortos. Eu nunca perdi ninguém da minha época. Talvez você seja o primeiro. Deve ser muito triste ter sua vida apenas como lembrança, sem amigos, pais, irmãos, irmãs, parentes, ter sua infância inteira apenas em sua memória, olhar para sua cidade natal e não reconhecer ninguém, nenhum rosto amigo ou ao menos conhecido. Todos mortos. Não consigo concretizar isto. É triste demais.

Me aconselharam a te procurar, pois tenho que participar desta sua última transição. Uso minha falta de dinheiro como desculpa para não ir ao seu encontro. Sou covarde, sempre fui. Sempre chorei sua doença sozinha e nos cantos mais quietos possíveis, fazendo de tudo para ningúem me escutar. Estou apavorada diante de tudo isto. Me pergunto como você está se sentindo, mas não em termos fisiológicos, pois sei que fisicamente a dor é imensa. Queria saber como está seu coração. Você parece tão calmo e sereno ao telefone, sempre dizendo que está bem e até fazendo piada com a sua situação. Sempre querendo acalmar a todos. Este deveria ser o verdadeiro sentido da palavra patriarca.

Tenho tanto a dizer... Mas minha covardia me impede de lidar com os sentimentos que você me causa. Te peço perdão pela neta aparentemente desnaturada que sempre fui. Sempre pensei em você e ainda penso. Te salvei uma vez através da minha pureza e inocência. Mas não sou mais pura nem inocente, então, não ouso nem tentar.

Obrigada por fazer parte da minha existência.

Sangue

Essa vontade de matar o "inimigo"
Planejo mortes sem razões sensatas
Meu ódio, inveja e ciúmes são infundados
Ou talvez não.
Talvez, eu realmente tenha que me sentir assim,
Com esse sangue nos olhos,
Desejando a carnificina de tudo aquilo que me faz mal
Preciso de equilíbrio
Preciso aprender a matar as pessoas por dentro
E não de forma externa,
Pois a morte interior é muito mais densa, precisa e irreversível
Eu almejo-a a todos
Quase todos

(05/08/2007, domingo)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Um ser humano como o meu

Quando tento entender o que sou nesse mundo físico e terrestre, nunca encontro uma resposta. Alguém me classificou como ser humana. O que significa humana? O que significa ser? De onde vem a palavra humana? Se existem, de onde vem seu prefixo e sufixo? Essa é uma palavra de origem grega? Romana? Latina? Hebraica? Não sei. Não sei de nada.

Dizem que sou a melhor criação de Deus, que sou sua imagem e semelhança, e por esse motivo, sou tão bela quanto ele. Me disseram isso olhando nos meus olhos, que se encheram de lágrimas por meu coração sentir a necessidade de que aquilo fosse verdade. Tentei acreditar. Tentei mesmo. Se sou a imagem e semelhança de Deus, por que sou tão imperfeita? Não acredito em mim como pessoa. Não acredito que dentro de mim de fato exista toda a essência bondosa que convencionaram para a palavra humana. Me sinto má, me vejo má. E vejo maldade em tudo, em todos.

Acredito que não sou um ser humano. Acredito que tenho um ser humano traçado para ser. Quando penso nisso, me sinto fora de mim, como se essa parte desconhecida que está dentro mim tentasse vir à tona, tentasse se sobrepor a todo esse ser humano que tento ser. E às vezes ela se sobrepõem. Me sinto tonta e fora de órbita quando isso acontece, como se por um segundo eu tivesse a consciência real de que sou apenas um brinquedo auto-programado nas mãos de Deus. E é assim que me sinto.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Esses são os pensamentos

These r the thoughts, música de Alanis Morissette

Esses são os pensamentos que passam pela minha cabeça
No meu quintal, em uma tarde de domingo,
Quando eu tenho a casa só pra mim,
E nao estou gastando toda minha energia brigando com meu namorado

É ele a pessoa com quem vou casar?
Por que é tão difícil ser objetiva sobre eu mesma?
Por que me sinto tão sozinha?
Esperam mesmo que eu viva nessa cidade louca?
Será que a tradição de negar a vida, que é continuada cegamente,
Regurgitada e induzida pelo medo, pode ser vencida?

Para onde vai o dinheiro que mando
Para aqueles que estão em necessidade?
Se nós temos tanto, por que algumas pessoas não têm nada ainda?
Por que me sinto fora de mim quando acordo de manhã?
Por que você diz ser espiritual, se você trata pessoas como merda?

Como você pode dizer que está perto de Deus
Se você fala pelas minhas costas,
Como se eu não fosse parte de você?
Por que falo que estou bem quando é óbvio que não estou?
Por que é tão difícil te dizer o que quero?
Por que você não pode simplesmente ler minha mente?

Por que tenho medo de que quanto mais quieta eu ficar menos você vai me ouvir?
Por que me importo se você realmente gosta ou não de mim?
Por que é tão difícil pra mim ficar brava?
Por que é tão trabalhoso ficar consciente e tão fácil se deixar levar,
E não o contrário?

Será que voltarei a me mudar para o Canadá?
Posso estar com um amante com quem eu sou uma aprendiz e uma mestra?
Por que sou encorajada a me calar quando chego perto de casa?
Por que não consigo viver o momento?

terça-feira, 12 de junho de 2007

Minha vida depois do pensar

Existem momentos em que cada movimento é definitivo e irreversível. Esses momentos são o começo de novas eras em nossas vidas. Sinto que estou passando por um dos decisivos estágios que definirá todo o resto da minha vida a partir dele. Esse talvez seja o principal entre todos. São tantas dúvidas e incertezas, tanta multiplicidade de resultados insatisfatórios...

Transito entre ideais há tempos traçados e falta de novas perspectivas, pensamentos há tempos mentalizados e contradição de opiniões. Sempre almejei o anarquismo. Agora que o tenho bem aqui, me debato por não conseguir me tirar dele. Ou seria tirar ele de mim? Eu não sei...

Minha cabeça não pára nunca. Me cansa esse exercício do pensar e não encontrar nada além de escombros e estátuas. As coisas não são mais como antes, não tenho mais a energia e disposição que sempre tive, não encontro mais as razões que sempre justificaram meus atos, não sinto mais o prazer que sempre senti em defender minhas causas e dissecar meus pensamentos. Agora, tudo é passageiro e insignificante. Tanto faz se vai chover hoje, se vou perder meu emprego ou se vou morrer amanhã. Não me sinto mais parte de nada disso. Sinto que estou além. Só não sei onde estou. Isso pode soar muito adolescente e imaturo. Eu não sei, não sei mais definir as coisas. O que sei é que estou cansada de todos esses movimentos de altos e baixos, de caminhar sem querer ir para lugar algum, de nunca conquistar algo de verdade, de sempre depender de coisas e pessoas alheias à minha situação, de ter que levar minha vida com o que tenho.

Quero que esse momento acabe logo. Não suporto mais acordar e dar de cara com a minha vida.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Mais do que tédio

Não consigo manter minha mente focada em nada. Estou dispersa, desconectada e descontente com tudo. Muito pouco na minha vida está me satisfazendo completamente, nem mesmo esse blog estúpido onde sempre tento me expor inutilmente. Essa hora que não passa, esse final de semana que não chega, e que quando chega acaba rápido, esse trabalho mecânico e mal remunerado, esse curso entediante, essa falta de vontade em descobrir e investigar o novo, essa apatia e indiferença na relação com as pessoas ao meu redor, esse cansaço físico e mental que nunca acaba, essa tontura que parece que sempre me levará ao desmaio. Tudo isso me desanima e me faz retornar para questões que pensei já ter resolvido.

Sempre quis ter a oportunidade de me relacionar com o belo, com o artístico, com o erudito e o intelectual. Essa oportunidade está bem aqui. E o que eu faço? Ignoro-a. Eu nunca vou me entender.

Me sinto tão pequena e mesquinha. Eu poderia ser plena, poderia estar aprendendo com esse momento, poderia estar fluindo. E o que eu faço? Me afundo cada vez mais em minha vontade de desertar de mim mesma. E é o que estou fazendo, dia após dia.

Gostaria de poder não respirar para nunca me acordar.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Esquadros

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa,
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

(Adriana Calcanhoto)

quinta-feira, 19 de abril de 2007

O silêncio que anula

Agora que focalizei minha atenção nessa dificuldade de expansão mental e verbal que eu mesma criei, não consigo ignorar a suposta ameaça que esse imaginário bloqueio significa para mim e para o meu mundo. Queria ter a mente clara e objetiva ao ponto de conseguir racionalizar os sentimentos para depois exteriorizá-los em palavras, gestos e atos. Essa é a velha temática de sempre (o problema com as palavras), porém, agora vista de um novo prisma: o problema com as palavras e com a organização interior. É realmente difícil encontrar dentro de mim, dentro da minha cabeça os pontos a serem acessados, dissecados e depois expressos. Me dói e me cansa muito fazer essa busca pelo abstrato que invariavelmente influencia no concreto. Queria poder fechar meus olhos sobre uma folha de papel e uma caneta e, ao abri-los, me deparar com todos os meus demônios ali poetizados e desnudados. Seria como num desenho cego: inconsciente e revelador.